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quinta-feira, 6 de junho de 2013

DOS FILHOS



Estou lendo o livro “Os enamoramentos”, de Javier Marías (Companhia das Letras, 2012), nele uma das personagens diz:

"Os filhos dão muita alegria e tudo o mais que se costuma dizer, mas também, e isso não se costuma dizer, dão muita pena, permanentemente, o que não creio que mude nem quando forem maiores. Você vê a perplexidade deles diante das coisas, e isso dá pena. Vê a boa vontade deles, quando estão a fim de ajudar e acrescentar algo próprio mas não podem, e isso também dá pena. Dá pena a seriedade deles e dão pena suas brincadeiras elementares e suas mentiras transparentes, dão pena suas desilusões e também suas ilusões, suas expectativas e suas pequenas decepções, sua ingenuidade, sua incompreensão, suas perguntas tão lógicas e até a ocasional má intenção que possam ter. Dá pena pensar quanto lhes falta aprender e no longuíssimo percurso que têm pela frente e que ninguém pode fazer por eles, apesar de estarmos há séculos fazendo e não vejamos a necessidade de que todos os que nascem devam começar outra vez desde o início. Que sentido tem cada um passar pelos mesmos desgostos e descobertas, mais ou menos eternamente?"

O tema principal do livro não é o sentimento dos pais diante dos filhos, embora este também seja um "enamoramento", mas o texto me capturou por enfocar algo que fala com propriedade de uma sensação entre pais e filhos.

Lembro dos momentos em que olhei para a minha filha e senti esta angústia. Ela tinha uns dois ou três anos e tentava alcançar algo sem conseguir. Ela gritava "Mamãe ajuda, eu não consego". Eu via o seu esforço e o seu fracasso. Lembro da sensação de uma certa angústia que havia no seu rostinho redondo.

Recordo que hesitei entre correr para ajudá-la e deixar que ela tentasse um pouco mais. Talvez eu estivesse projetando que seriam as dificuldades da vida, deste nosso embate diante das inúmeras dificuldades que enfrentamos, superá-las e avançar ou chorar diante de um possível fracasso.

Eu assistia a ela, tão pequena, tão frágil, tão confiante no meu poder ilusório de ter soluções para a vida. Sabemos que apesar do nosso esforço para apoiar nossos filhos diante dos enfrentamentos da vida, jamais podemos tapar todos os buracos daquela luta íntima que cada um de nós trava diante da vida. Nela cada um de nós está só. Sempre só.

Minha primeira filha chegou quando tinha 20 anos e ainda lidava com as perda da adolescência. Lembro que diante da surpresa da sua chegada eu e o pai dela buscamos aprender a ser mãe e pai.

Tornar-se mãe e pai não é algo dado, algo que vem com desdobramento do biológico, sempre mais claro para as mulheres que para os homens. É preciso efetivamente ir além dos laços biológicos, é preciso ocupar este lugar - tornar-se. É um processo, onde nada é muito definido, nem garantido, e exige um contínuo movimento, um exercício de acertos e erros, nem fácil, nem simples.

E como vivemos em uma época de transformações  cada vez mais rápidas, um mundo movediço, onde a tradição já não determina o que vamos fazer, mas não sabemos ainda quais transformações são necessárias. Mesmo que tenham sido publicadas reflexões, e caminhos tenham sido propostos pela psicologia, ainda permanecemos com amarras na tradição, questões não respondidas.

Convivi durante todo tempo com a constante dúvida em relação ao exercício da maternidade. Recordo que na adolescência deles foi um momento crucial, lembro da minhas angústias diante dos questionamentos deles, das buscas, das inquietações, das melancolias.

Protegê-los era uma missão impossível. Nenhuma palavra, nenhuma atitude era suficiente ou relevante. Os caminhos e descobertas são unicamente deles. E tudo que podemos ofertar é o nosso movimento de busca de sentido diante da vida, uma palavra de animo e de carinho.

Agora que eles estão adultos, e, muitas vezes, sequer aceitam nossas ponderações, preocupações, carinhos, só nos resta torcer, pedir a ajuda do divino para que ilumine. E cuidar da nossa saúde, para nos mantermos ativos  e independentes, para não ser um fardo na vida deles. E prosseguir a caminhada em buscar  novos sentidos para a vida.


5 comentários:

Ramon Prates 6 de junho de 2013 17:13  

Esse último paragrafo aí é "polêmico" hein. hehehehe

Tucha 6 de junho de 2013 18:49  

Pode ser Ra... estou sempre aberta a polêmicas

Mary 9 de junho de 2013 00:35  

minha mãe sempre fala, filhos pequenos problemas pequenos e olha que ela só tem a mim como filha amiga.. hehehehe.. pode fuçar à vontade no meu blog, isso sim me deixa feliz.. amei tua sugestão de coisas que amo, já estou quase no final da lista, vamos ver se para o próximo post coloco elas.. hehehe.. beijos mil e ótimo domingo..

Georgia Aegerter 17 de junho de 2013 02:54  

Marta, que reflexao amadurecida.
É difícil educar filhos. Tanto faz o que fazemos eles vao sempre reivindicar os seus direitos e poucos deveres.
Tanto faz se damos algum conselho, eles vao experimentar um novo caminho e nós como maes ficamos na esquina torcendo para que eles quebrem seus narizes e se voltem para nós nos dando razao. Teria sido diferente contigo ou comigo nesta idade? Nao.

O mundo é todo velho e tudo se repete, cabe a nós estruturarmos enquanto dá e enquanto eles ainda sao bem jovenzinhos o caminho que achamos ser o certo e que muitas das vezes tb nao é, estamos sempre enovando, para que eles achem os seus prórpios caminhos e sigam adiante.

Uma linda semana pra vc.

Bergilde Croce 12 de julho de 2013 07:59  

Acredito também que quem assume esta responsabilidade de educar os filhos tenta dar o melhor de si para os mesmos,embora nem sempre isto signifique verdadeiramente o que é melhor.Ninguém é infalível e temos que aprender também a aceitar nossas limitações buscando todos os dias aprender e acompanhar o progresso pessoal dessa moçada.
Abraço pra ti!
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