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quinta-feira, 22 de março de 2012

PASSAPORTE


Na maior parte do ano fica na gaveta esquecido, até que... férias e ele volta à cena com toda força.


Nossos documentos escondem (ou revelam) determinadas afirmações, determinadas certezas. Nossos rostos aflitos da fotografia, flagrados num momento do tempo, a marca da nossa entrada no tempo, o lugar geográfico onde aportamos no tempo, nossos pais, números que nos identificam. Mas há segredos da nossa história que eles não revelam, por mais que os dados sejam concretos, verdadeiros.

O passaporte é este livrinho com nosso nome completo, nossa data de nascimento, nossa imagem e a ambição burocrática de representar as manhãs de sol do meu país, o seu azul do mar, o verde das matas, as alegrias dos sons. Nacionalidade BRASILEIRA está lá. E mais que isto, a minha aldeia, Ilhéus também está lá, nos meus registros.

Os números da data de nascimento invocam aquele momento onde minha mãe corajosa e feliz me trouxe ao mundo, depois do tempo de acolhimento em seu corpo. Por causa deste momento estou aqui leio, entendo, cruzo as fronteiras. Entretanto quase nada está lá, nem um resumo da minha infância, as descobertas, lutas, perdas, entardeceres românticos, chuvas de inverno, suores de verão. Nem mesmo as emoções das viagens cujos carimbos enfeitam as suas páginas. Nada foi revelado.

Por isso imagino que o meu passaporte gostaria de ser uma borboleta vagando pelos jardins da minha pequena Ilhéus, pousando nos seus hibiscos, ou um sorriso à solta pelas ladeiras de Salvador, cheio de dendê e dengo. O meu passaporte de papel como os outros, de papel, gostaria de ser, quem sabe... folhas de palmeira soltas ao vento, uma tapioca quentinha, um doce de umbu, geleia de cacau.

Em vez disso viaja guardado na minha mochila e, quando chega o momento de o analisarem, quando o testam sob lâmpadas azuis, meu passaporte fica subitamente tímido. Recorda o tamanho do seu significado e arma-se de números, letras e afirmações inequívocas. Mas sabe que, perante esse país cheio de luzes e sons, ele é apenas um papel carimbado.

4 comentários:

Bergilde 23 de março de 2012 07:06  

Cuidado com ele pois vale muito pela sua segurança....Nem preciso dizer pois como grande viajante sabe melhor que ninguém.Boa viagem,curta bastante os lugares,as cores,as pessoas,enfim, volte cheia de novidades para nos contar.
Até +++!

Bel 23 de março de 2012 21:08  

Fiquei emocionada. Acho que é porque eu poderia assinar embaixo desse texto tão sensível.
Boa viagem, e fotografe muuuuuito!!!

Georgia 28 de março de 2012 09:34  

Nossa,adorei o texto. Simples, direto, cheio de sonhos.

Boa viagem e até à volta.

Bjao

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