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segunda-feira, 14 de março de 2011

NO MEIO DO POEMA...


Abro alheiatoriamente um livro de Drummond, e encontro um poema melancólico, jorando tristeza pra todo lado. E eis que no meio do poema um verso: “As coisas. Que triste são as coisas, consideradas sem ênfase.” Fiquei com este verso martelando na minha cabeça. Mas o que significa mesmo esta tal ênfase?

Para alguns, ênfase é paixão. Olhar a vida de forma menos mecânica, mais ativa, mais plena. Para outros, inteligência. Analisar os fatos usando as armas da razão, tentando compreendê-lo num contexto mais amplo.

Mas somos humanos será que conseguimos em determinada situação racionalizar e resolver friamente ou, ao contrário, usar unicamente a emoção e mergulhar sem pensar? Acho que não. Somos tudo junto e misturado. Sonho, razão, paixão, cor, confusão.

A tal ênfase seria então o resultado da emoção, da inteligência e de todas as condições humanas. No jogo da vida vale mais o empenho, a vontade de conhecer e de se surpreender. Quando estamos disponíveis para aprender, desafiamos nossa criatividade, conseguimos nos sentir mais vivos. No espírito da época pós carnavalesca, seria aquela hora em que dá samba, em que a gente bota o bloco na rua.

E afinal quem não têm os seus momentos de angústia, de desespero, de tédio. E ai, surgem os poemas, como a flor furando o asfalto. E nos ajudam (palavras e flores) a, como canta um outro poeta, seguir “transformando o tédio em melodia”, pois afinal “gente é pra brilhar”.



A FLOR E A NÁUSEA
Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cizenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que triste são as coisas, consideradas em ênfase.

Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam pra casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens macias avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Carlos Drummond de Andrade

7 comentários:

Ale Quejinho 15 de março de 2011 10:33  

Minha primeira vez por aqui, e estou amando. Deixo meu convite para conhecer o meu blog, se gostar me siga tambem que ficarei honrada.
Ale

Bergilde Croce 16 de março de 2011 08:44  

Tucha,nessa reflexão, ao meu ver, você conseguiu ir além das definições,atingindo em cheio a introjeção do grande escritor.Realmente grandes obras são elaboradas em momentos de dificuldade e dor porque sei lá porque são nesses momentos que a gente é mais criativo.E,Drumond é Drumond sempre vivo e original.
Abraços,
Bergilde

Georgia 16 de março de 2011 11:47  

Que ótimo achado, Marta.

Bjao

Adriana Alencar 16 de março de 2011 22:46  

Ênfase passa a idéia de importância, do que é essencial, do que deve ser analisado com mais cuidado. Entendo ênfase como a prioridade, o que realmente tem importância e requer nossa atenção e dedicação.
Agradeço as palavras lá no blog e também estarei sempre passando por aqui para trocarmos idéias!
beijo
Adri

José Sousa,  17 de março de 2011 18:11  

Oi querida e linda Tucha!
Tenho que vir mais vezes ao seu blogue! Ele é muito atrativo, vocês escreve muito bem. Gosto muito do que escreve e da forma como o faz.

Um grande beijo.

Bel 17 de março de 2011 23:28  

Amei a foto. Fiz uma parecida, mas a flor era maiorzinha. Com ela assim tão pequena, a foto fica ainda mais bonita. E Drummond... é Drummond e ponto.

Bjoooo

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