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domingo, 24 de julho de 2011

OUTRA HISTÓRIA DE AMOR



De hoje não passa. Ando há muito tempo para contar uma história de fadas, embora elas andem um tanto fora de moda. A história é de fadas. Não que elas apareçam, mas tem personagens daqueles contos que costumávamos ouvir quando em criança, tem príncipe, princesa, romance e até a vilã - a madrasta.

O acaso os colocou juntos na região de Siqueiro do Espinho, nas proximidades da vila de Guaracy, atual Coaraci, interior da Bahia. Alzira, nossa princesa, era quase uma menina morava com a família numa fazenda, nos arredores do povoado, sob a vigilância da malvada madrasta. Como a Gata Borralheira, tinha que fazer o serviço da casa, cuidar dos irmãos menores. Nenhum vestido luxuoso para vestir, poucas roupas, todas muito simples.

Alípio, o príncipe, tinha partido do sertão para a região cacaueira, a terra que dá frutos de ouro. Fugia da seca e da pobreza, buscava aventuras e quem sabe a fortuna. Ao contrário dos príncipes das histórias o nosso era pobre, chegou com poucos pertences numa pequena mala e quase nenhum dinheiro, mas cheio de coragem e disposição para trabalhar.

Conseguiu o primeiro emprego que na padaria do povoado, era entregador de pão. Saia na madrugada e percorria as fazendas próximas com o cesto de pão distribuindo o produto até que nada restasse. Ganhava quase nada, mas tinha o almoço garantido.

Foi assim que se conheceram. Ele se encantou com aquela menina de pele morena, cabelos pretos, muito lisos e jeito tímido. Aproveitava o momento da entrega do pão para um galanteio que ela respondia com um sorriso discreto. Alguns dias levava também uma flor, apanhada nos campos, o sorriso dela era maior. Atenta a tudo, a madrasta a chamava para dentro e ralhava com ela. Eles nunca chegaram a conversar.

Os caminhos se desencontraram. Alípio mudou de emprego, conseguiu uma oportunidade como canoeiro atravessando as pessoas no rio, ganhava um pouco mais que no primeiro emprego. Trabalhando muito foi economizando aqui e ali. meses depois fez uma proposta ao proprietário e comprou a canoa.

A fada dos destinos, e eu que disse que as fadas não apareciam, voltou a aproximá-los. Tempos depois, a família dela deixou a fazenda e mudou-se para o povoado, uma casa à beira do rio Almada. E era justamente nas proximidades da casa dos Ferreira que ele ao final do dia, estendia a lona da canoa na calçada.

Em um destes momentos a reencontrou a reconheceu e cumprimentou. Reparou com os cabelos dela estavam mais longos e brilhantes, estava mais bonita que nunca, ele pensou. A princesa também não deixou de reparar nele, tinha uma bela figura. Parecia que era tarde demais, ela estava compromissada com um rapaz e ele tinha uma namorada.

Continuavam trocando olhares, até que certo dia ele tomou coragem e lhe declarou a admiração e lhe propôs namoro. Ela respondeu:
- Eu já estou noiva.
- Onde há uma força maior, cessa a menor – ele disse apaixonado.
- Termine o seu namoro primeiro – ela desafiou.

Ele cumpriu o prometido e terminou o namoro, ela, a contragosto do pai, rompeu o compromisso. Começaram o romance e foram se afeiçoando cada vez mais, até que decidiram construir uma família.

O começo da vida em comum não foi fácil. A primeira moradia era uma casa era simples, a mobília foi construída usando madeira reaproveitada de caixotes. A jovem ficou um pouco frustrada, mas ele lembrou de um outro casal da localidade que comprou os móveis novos e teve que devolvê-los por falta de pagamento. Quando colocar uma mobília aqui dentro, ele falou, pagarei à vista. Demorou mais cumpriu a promessa, ele, além de trabalhar muito, tinha mesmo talento para negociar e fazer o dinheiro render.

Os primeiros filhos chegaram trazendo a alegria e reboliço a vida do casal. Os negócios de Alípio melhoraram, já era dono das canoas que atravessavam o Almada e tinha também, sociedade, de um pequeno armazém. Enxergando futuro na novidade vendeu as canoas e comprou um pequeno caminhão.

Entretanto o negócio do pai que mais agradou aos pequenos foi à construção de um cinema – o cine teatro Rio Branco. Um empreendimento arriscado para o tamanho do povoado, mas que foi durante algum tempo a alegria do lugar, e sobretudo dos filhos, que se encantavam com os seriados de aventura.

Aqueles tempos foram imensamente felizes, a tranqüilidade do espaço urbano, a proximidade com a natureza, a vizinhança conhecida e amistosa certamente contribuíam para a sensação de felicidade.

Se fosse mesmo uma das histórias de fada, seria o momento de colocarmos o tradicional “e foram felizes para sempre”. Mas na vida real a história é quase sempre outra. Os momentos de idílio do começo ficaram raros, conversas e afetos foram minguando e cada qual se aquartelou nos seus afazeres e foram levando a vida.

Ela administrava a casa e era uma mãe amorosa, sem deixar de traçar limites, de forma intuitiva aprendeu a lidar com o jeito diferente de cada um dos nove filhos. Ele tinha grande capacidade de negociação e foi construindo seu patrimônio, investindo, sobretudo, nas fazendas de cacau que tinham o seu tempo áureo. Seguindo a lógica machista, não preservou a fidelidade, arriscava olhares para outras mulheres, terminou se envolvendo com uma jovem, com quem teve uma filha.

Nos últimos meses de vida dele, voltaram a aproximar-se. Ela cuidou dele com desvelo durante todo o período de adoecimento, esquecida de todas as mágoas. Buscava resgatar a vida espiritual dele, oravam, liam a Bíblia. Quando ele partiu, ela estava junto com as mãos postas na dele, chorava baixinho.

3 comentários:

Georgia 25 de julho de 2011 02:06  

Marta, uma linda estória de amor. Me lembro qdo vc escreveu a estória dos teus avós e agora esta.

Amiga, fica a saudade nao é? Os momentos felizes que passaram juntos.

Que bom que teve sim um final feliz. O reencontro com Deus e com a família.

Um grande beijo

Bel 28 de julho de 2011 07:53  

Chorei. Mesmo conhecendo a história, você fez com que ela se tornasse completamente nova! Esse é o nosso cordel encantado, e nós vamos dando continuidade a ele, com nossos encontros e desencontros amorosos, nó, mulheres, sendo as mães que aprendemos a ser com vovó Alzira e nossas próprias mães, os homens sendo empreendedores e fortes como vovô Alípio. (Esqueçamos a parte da fidelidade... huauhauhua)

Beijo enorme, querida! Amo você!

Douglas Guerra,  26 de julho de 2016 18:05  

E graças a eles aqui estou , queria ter conhecido meu nobre avô Alipio de S. Guerra, sou filho de Alipio de S.Guerra Filho , familia honrada nõ é atóa que o sobrenome é Guerra !!!! Orgulho !!!

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